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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O comboio já partiu

Que é que nos aconteceu? Onde estão os fins de tarde passados a conversar nas rochas, como sempre nos habituámos a estar, as lutas e as corridas pela casa em que eu sufocava de tanto rir e as discussões acabadas nos braços um do outro? Queria que me prendesses nas piores alturas, quando te peço para não o fazeres e tu me ignoras, mesmo eu gritando. No fundo sabes o que eu quero e, principalmente, quem eu quero. Onde estás? Nunca te disse o quanto gosto de ti, mas as coisas verdadeiras da vida não se contam a ninguém. Gostava de saber o que é feito de ti, em que é que mudaste e quem te mudou. Se olhas da maneira como me costumavas olhar e se ris mais com a alma do que com os lábios, como se isso fosse o mais normal. A verdade é que contigo nunca nada foi normal, nem nunca mais será para mim. Imagino se mordes outro pescoço que não o meu e se passaste a conhecer uma voz desconhecida para mim. Se corres no teu quarto com mais alguém atrás, ou atrás de alguém e se partilhas as mesmas histórias. Se ocupaste o lugar vazio na tua cama após a minha partida. E pergunto-me se será tudo isto verdade.Vou dormir e deixar de pensar que estou a pensar em ti, apesar de ambos sabermos que amanhã voltarei a estar aqui, pronta para tudo e, principalmente, para ti, como se isso fosse o ciclo da vida, dia após dia, quando tu sabes que a minha vida és tu e que isto é só mais um ciclo que eu criei em torno de ti, apenas para não ter de te largar mais nenhuma vez, como tantas vezes o fiz. Pergunto-me se ainda mexes no cabelo como fazias antes, se ainda te pareces com o que costumava ser de ti e se ainda apanhas o mesmo comboio, porque eu nunca mais te consegui apanhar.

"Your t-shirt's lost its smell of you, (...) remind me why we decided this was for the best."

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Hoje sigo-te as pegadas

Hoje, só hoje, sigo-te as pegadas. Sigo-te as pegadas porque é o que me resta de ti. O teu rasto está por toda a parte e, por mais que me esforce, não o consigo apagar. As cinzas da tua partida continuam no sofá, o teu perfume ainda preenche o ar, a tua voz ecoa nas paredes, fazendo-me companhia todas as noites em que não estás presente, por todos os dias em que estiveste, e os vestígios da tua passagem continuam marcados no meu coração, aquele que eu te dei, lembras-te? Tu és tu. A outra parte de mim. A metade de mim que levaste contigo, no dia em que nos conhecemos. Se eu seguir as tuas pegadas, dir-me-ão elas onde te encontrar? Vou procurar-te, noutros mundos, noutras vidas, noutros corpos, mas não noutros dias. Só hoje. Amanhã talvez ganhe a esperada coragem e rasgue tudo o que fala por ti, uma vez que tu não estás (nem nunca mais vais estar). Mas hoje não. Se eu hoje seguir o teu rasto perdido, talvez ainda (te) encontre. A outra metade de mim. A parte que em ti ficou. Vagueio sobre o chão por onde andaste com uma carta na mão. De despedida ou de regresso, como quiseres. Tu foges de mim? Não, tu segues-me. Só hoje.